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#01. Os Fernando Pessoas da Defecação

Nestes dias, estive a pensar. Faculdade raramente utilizada por mim, mas muito útil quando tenho de escolher entre uma boa chanfana e uma francesinha. Quando sou confrontado com esse dilema, acabo sempre por selecionar o alimento mais nutricional, contendo vitaminas e minerais – o Chocapic. A Nutri-Score não me deixa mentir, dando-lhe um A na classificação das escolhas mais saudáveis. Génio.

Mas, após esta escolha bem ponderada, acabo por ter outros pensamentos, só que desta feita, na casa de banho. Ainda não consegui encontrar a razão, mas este é o local onde muitas vezes os meus pensamentos desaguam.

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E o que desaguou desta vez, foi o seguinte pensamento introspetivo:

“Olha lá, tu és o Fernando Pessoa da defecação!”.

“Fernando Pessoa da defecação?”, retorqui de imediato com o meu ser mais profundo.

“Sim. A tua personalidade diverge dependendo da porcelana na qual te estacionas.”

E isso levou-me a fazer uma autoanálise: “Será que eu sou um Fernando Pessoa da defecação?” Parei, ponderei e conclui: “É capaz de ser, deve”. E eu venho aqui a público dizer que sim… sim, eu sou.

Olá. O meu nome é André, e sou um Fernando Pessoa da defecação.

[Esta é a parte em que o leitor deve dizer “Olá André”]

A minha personalidade varia entre porcelanas sanitárias.

Ilustração de Samuel Perdigão

Por exemplo, não possuo nenhum pudor em estatelar as minhas nádegas na minha própria porcelana, visto que ela a mim pertence. Não importa quem nela se assentou. O facto de ser minha, faz-me olvidar dos micróbios que lá podem coabitar, pois no meu subconsciente, penso que talvez exista um processo de desinfeção imaginário que me salvaguarde de bactérias de outrem para que não entrem em contacto com a minha região glútea. Se na tampa tiver um cabelo, um pequeno sopro da minha parte é o suficiente para afastar tanto o próprio cabelo que desconheço a proveniência, como também algum micróbio que nele estivesse agarrado. Além disso, não me importo se o meu traseiro seja banhado após o mergulho do nadador olímpico que liberto. Pois a porcelana é minha e a pequena piscina que ela possui, também. Se as minhas nalgas tencionam lançar um sopro de euforia antes de o meu mergulhador entrar em ação, eles estão à vontade. Porquê? Porque aquela porcelana é minha, e o que lá esvazio, também. A esta minha personalidade dei um heterónimo de “Joaquim Javardo”.

Mas, quando sou apresentado a outro tipo de porcelanas que não estejam debaixo do meu radar, e que são me cedidas para efetuar o ato da evacuação, tendo a ser mais criterioso. Passo a ser um agente do FBI empenhado em buscas excrementícias. Para esse feito, procedo de antemão a uma inspeção meticulosa do assento sanitário. Questões de observação são feitas, tais como: Como está o estado da tampa? Contém gotículas? São de que tonalidade? Possui caracóis à Marco Paulo? E o interior da sanita? Possui a sua cor de fábrica, ou o utilizador que me antecedeu mudou temporariamente a sua coloração? Precisarei de manusear a “escova de dentes” da sanita, o tão conhecido piaçaba, que antes era branco?

Se este exame tiver uma avaliação positiva, procedo ao passo a seguir que envolve a criação temporária de um SPA da defecação. Como isso se processa? Primeiro, para salvaguardar o meu traseiro de bactérias, começo por estofar o tampo da sanita com algumas camadas de papel higiénico. É do meu conhecimento que, quando as bactérias que se encontram acampadas no tampo da sanita veem-se encurraladas com esta nova forra, ficam logo abatidas, interrogando-se: “Opá, e agora? O que vamos fazer?”. É um inibidor bacteriano do melhor. Génio. Após isso, faço uma bola gigante de papel higiénico e lanço-o no fundo da sanita. Porquê? Para que quando o nadador olímpico mergulhar para a piscina, não sejam as minhas nalgas salpicadas com águas nunca antes navegadas. Por fim, busco o ambientador mais próximo. Assim como um assassino limpa as impressões digitais para não ser detetado, eu pulverizo o local, provando assim que nada se passou ali. A esta minha personalidade dei um heterónimo de “Carlos Delicado”.

No entanto, por vezes, o exame que efetuo-o apresenta uma avaliação negativa, não me possibilitando aninhar nesse assento. Até mesmo se houver uma vontade exorbitante de libertar o nadador olímpico que em mim carrego, ele atira-se para dentro recusando-se a sair, fazendo como que um Bungee Jumping intermitente. A esta minha personalidade dei um heterónimo de “Jorge Epá, nem pensar”.

Por fim, se o que por dentro de mim percorre são águas pluviais, que pressionam o meu mini esfíncter, nesse caso, epá, que se lixe os heterónimos.

Após esta reflexão escatológica, acabei por chegar a uma simples e terminante conclusão: “Não como mais Chocapic para não ter pensamentos de caca.”

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