Vilipêndio! Bela palavra… e não, não é uma pomada para as hemorroidas.
“Já passaste o vilipêndio?” Não, não é. Até porque elas não precisam de hidratação. Precisam é de banhos frios, porque a sensação que temos é a de alguém que nos acendeu um isqueiro no… enfim.
Por falar em isqueiro: não é que chegámos àquela altura do ano em que podemos assistir a belas conversas entre pessoas vulneráveis e uns totós com microfone? São aquele tipo de conversas que me fazem saltar do sofá…, mas só quando a minha esposa se esquece daquela almofada com agulhas, com restos de linhas, no sítio onde o meu traseiro vai repousar. Quando isso não acontece, e fico a ver tais conversas, começo a sentir cólicas emocionais.
Por isso, para não ser o único a sofrer, partilho alguns exemplos convosco. Acompanhem-me!
DIRETO DE UM CANAL TELEVISIVO
“Um homem em Sardinhada do Vale ficou sem casa após as chamas a terem consumido. O nosso repórter, Severino Minhóquinho, já se encontra no local.”
[Aquela pausa irritante em que o repórter enfia o dedo no ouvido e abana a cabeça para cima e para baixo, como se fosse um DJ.]
Repórter: É isso mesmo, Jorge. Já tenho aqui comigo o senhor Paulo. [com uma voz calma] Senhor Paulo, este é um dia de tragédia.
PAUSA PARA REFLEXÃO PARVA:
O que é que o repórter espera ouvir do desgraçado?
“Tragédia? Só se for para si! Tinha ali uma vara de porcos, morreram carbonizados todos os 55. Ainda aproveitámos as brasas do telhado para assar alguns que estavam meio crus, bebemos muita aguardente e fizemos uma patuscada com os bombeiros!”
Fica a reflexão!
Desgraçado: [a chorar copiosamente] “Olhe, perdi tudo, tudo, tudo! Tudo pelo que lutei a vida toda! Tinha uma vara de porcos, morreu tudo. Tinha os meus carros, perdi tudo! Tinha a minha sogra… e a velha safou-se! É pior que o meu catarro! Não tenho sorte nenhuma!”
Repórter: [com aquela calma irritante] “Realmente, uma tragédia! Diga-me: qual é o sentimento de perder tudo, o trabalho de uma vida?”
PAUSA PARA OUTRA REFLEXÃO PARVA:
O que espera o repórter ouvir com esta pergunta inteligentíssima?
“Nunca estive tão feliz, amigo! Já não pago IMI, nem imposto de circulação, nem comida para os porcos. E, o melhor de tudo: a limpeza do mato ficou feita com o incêndio. Agora sim, está tudo limpinho, limpinho…”
Fica esta ponderaçãozinha!
Desgraçado: [aos gritos] “Aiiiiii que eu não sei! Eu devia ter ido com o fogo! Já é a segunda vez que isto me acontece!”
Repórter: [com empatia forçada] “É compreensível! E desculpe estar a maçá-lo, mas permita-me só mais uma pergunta: e agora?”
PAUSA PARA UMA REFLEXÃO, QUE SEM DÚVIDA, É PARVA:
O que este…bem, o que ele quer ouvir?
“Agora? Consigo não sei, mas tenho de ir embora que tenho consulta às três da tarde!”
Desgraçado: [sem esperança] “Agora… sei lá, senhor! Tomava os comprimidos todos para desaparecer, mas também arderam junto com a casa!”
Repórter: [a concluir a reportagem] “Muito obrigado, senhor Paulo, e força! [volta para a câmara] Foram as palavras sentidas do senhor Paulo, onde ficou evidente a mágoa de se perder tudo de um dia para o outro — neste caso, em apenas alguns minutos. Voltamos a estúdio, porque agora o senhor Paulo terá de dar a mesma entrevista, respondendo a novas perguntas inteligentes para a RTP, SIC, TVI, CMTV, NOW e NOW de Madre de Deus. Boa noite!”
Agora penso: vilipêndio? Não!
São apenas umas questõezinhas pseudo-existenciais.