Os incêndios que atingiram o centro e norte do país, em particular a Serra da Lousã, tiveram impacto não só na floresta e nas populações, mas também na apicultura e na sobrevivência das abelhas. A preocupação foi sublinhada por Ana Paula Sançana, diretora executiva da cooperativa LousãMel, em entrevista à Beira Digital TV.
“Foi uma perda que não quero acreditar que seja irreparável, mas vai demorar muito tempo até que tudo se volte a restabelecer e exista equilíbrio”, afirmou.
Segundo a responsável, alguns apicultores perderam colmeias, mas o maior impacto está na destruição da flora que serve de alimento às abelhas. “Há uma área imensa que ardeu e, tendo ardido, as abelhas não vão ter alimento nesta altura crítica do verão. Além disso, já estavam a ser fortemente pressionadas pela vespa asiática e pelo ácaro varroa, o que as deixa desprotegidas. Até à próxima primavera precisarão de um suporte artificial de alimentação”, explicou.
O fogo terá também consequências na produção futura. “A produção de mel para o próximo ano fica comprometida, porque não podemos esperar que toda a flora da Serra se restabeleça rapidamente. Já tínhamos baixas produções este ano, e esta situação agrava ainda mais o cenário”, acrescentou.
Ana Paula Sançana apelou à intervenção das autoridades. “É fundamental que as entidades oficiais tenham consciência de que os apicultores são verdadeiros guardiões da biodiversidade. Não basta reconhecer as perdas, é preciso compensá-las. A nível do PEPAC, que apoia a biodiversidade com base no número de colmeias, os apicultores não podem ser penalizados por terem perdido colmeias nos incêndios.”
Sobre as medidas anunciadas pelo Governo, considera que são um passo, mas insuficiente. “Positivas serão sempre, mas ainda não são muito específicas. Até agora, a nossa cooperativa não recebeu nenhuma comunicação oficial, apenas informações indiretas. Esperamos que haja respostas rápidas e consistentes.”
A responsável destacou ainda o apoio de alguns municípios que já contactaram a cooperativa para identificar necessidades urgentes. “A nossa área de atuação vai de Chaves ao Algarve, e temos recebido pedidos de ajuda de muitos apicultores. Estamos a tentar apoiar dentro das nossas competências e a garantir que não percam a fé, porque isto é fundamental para a biodiversidade.”
Sobre o futuro, deixou um alerta: “Não será fácil. A vespa asiática continua a espalhar-se, agravada pelos incêndios, e não sabemos o impacto que terá. Por isso, volto a apelar para que as entidades olhem para as abelhas e para toda a biodiversidade associada. Não pode ser só prejuízo atrás de prejuízo. Perder mel é mau, mas perder colónias inteiras seria ainda mais dramático.”