Eu tenho um defeito: não gosto da ideia de que vou falecer. Ideias minhas. É algo que me faz confusão. Porque é que os humanos, com sorte, conseguem chegar aos 70, 80 ou 90 anos e o Pinheiro-bristlecone consegue, com sorte, chegar aos 4.800 anos? O que tens contra nós, pinheirito? Só porque és dos states, pensas que és melhor que nós, ó palito torcido californiano! Espero que o “calor” tenha passado por ti.
Visto ter uma repulsa recorrente por tudo o que me possa aproximar do óbito, acabei por desenvolver algumas hipocondríases e parvoíces, por alguns deveres e atividade ditos normais do quotidiano. Eu chamo a essa sensação de pré-falecimento. Notem alguns exemplos.
Andar de avião. Na minha singela opinião, andar de avião é um desporto radical imposto para aqueles que pretendem viajar para ver os seus entes queridos. Participar deste desporto é como se tivéssemos quase a beijar o óbito. E como se isso já não bastasse, os parentes na qual preciso de visitar regularmente, ficam numa região onde o seu aeroporto intitula-se Aeroporto Internacional da Madeira – Cristiano Ronaldo que, além de ter o nome do “maior do mundo”, é o aeroporto que dá os maiores cagaços do mundo. Além disso, os aviões que são usados para os trajetos são tão apertadinhos que nós já nos vamos habituando a estar inseridos no tão conhecido “aperto de quatro tábuas”. Portanto, é um treinamento.
O que faço para me acalmar? Descarrego sempre um filme para o meu telemóvel e uso sempre uns headphones que tenham noise-canceling, porque se for para cair, ao menos não ouço os outros a gritar. Penso que estão apenas a bocejar. Todos eles.
Quando estou quase a relaxar, a hospedeira diz para tirar os headphones para ouvir algo muito encorajador. Embora elas possuam um discurso bem elaborado, o que a minha mente traduz é o seguinte:
– Senhoras e senhores, vocês sabem que este monte de ferro pode despenhar-se. Penso que vocês têm ouvido as notícias ultimamente. Por isso, cintos apertados na cintura. Se o avião despressurizar, seja por uma porta mal vedada ou uma fissura na fuselagem, vão cair máscaras sobre as vossas cabeças e tentem respirar naturalmente. O pânico não é bem-vindo aqui. Não sejam mariquinhas. Se formos nadar com os peixes, vocês têm um colete de salva-vidas debaixo dos assentos. Se caso houver um problema a inflar, soprem, porque não somos as vossas criadas. E, não se esqueçam de colocar os vossos dispositivos eletrónicos em modo de voo, se não vamos todos pró galheiro. Entendido?
Agora, imaginem o que é eu panicar durante 1h45m de voo, só porque não coloquei o meu tablet em modo de voo, que se encontra na minha mala no porão. Este desporto não é para todos!
O mais interessante é que, devido à pessoa estar tão apertada nos assentos, e tão perto de outros indivíduos, não exista nos procedimentos de segurança algo como “não peide durante o voo”. Eles deveriam rever isso. Se o meu primo Arnaldo entra num avião desses, acredito que o voo é logo divergido para o Porto Santo, terão de deixar as portas do avião abertas durante a noite e mesmo assim, não garanto que o cheiro não fique entranhado nos estofos.
Bem, tento acalmar a minha ansiedade à medida que o avião começa a andar. Nisto, uma senhora do meu lado diz:
– Está a cheirar a combustível!
E apetece-me logo esganar aquela pessoa! Mas não posso, porque dizem que devemos ter os nossos cintos na nossa cintura e não no pescoço de uma ignorante.
Coloco logo os meus headphones e fecho a janela para desligar-me daquela situação. Mas não foi por muito tempo. Vem de imediato uma hospedeira e diz:
– Olhe, para curtir mais, ordeno que tire os headphones e abra a janela. Boa viagem!
Fofa!
Mal o sinal dos cintos se desliga, dirijo-me logo à casa de banho para orar a Deus. Os meus pedidos são muito específicos: que a pessoa que fez manutenção do avião nunca tenha sido internada no Júlio de Matos e para que tanto o piloto como o copiloto venerem incondicionalmente o facto de estarem vivos. E, já que estou ali, aproveito para me distrair com expulsões excrementícias. É claro que, após isso, não puxo o autoclismo porque não quero ser sugado para fora do avião. O próximo utilizador que expulse aquele camaleão dali para fora. Génio.
Esta minha sensação de pré-falecimento só culmina na parte mais importante do voo – a aterragem. Aconselho a que quando o piloto diz “terra à vista” a que se agarrarem bem. Não sei bem a quê, mas a que se agarrem ao que puderem. Nem que seja na cabeça do careca que está sentado à vossa frente. Porquê? Pois quer faça chuva ou sol, o avião vai bater com tanta força na pista que até faz com que um tetraplégico volte a sentir a sua coluna cervical. Ainda dizem que é o transporte mais seguro. Arranjem parentes mais próximos, pá.
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Tratamento hospitalar. De 6 em 6 meses, tenho de me dirigir ao hospital para fazer um tratamento intravenoso. Eu até posso chegar ao hospital com toda a saúde do mundo, mas mal ponho os pés dentro do estabelecimento, o meu sistema nervoso diz “vou morrer”. É como se o meu corpo dissesse ao óbito “anda cá”. Olho para alguém a se sentir mal, “vou morrer”. Medem-me a tensão arterial, “vou morrer”. Fazem-me colheita de sangue, “vou morrer”. Estou a suar, “vou morrer”. Alguém peida-se, “não fui eu”. E se continuar a escrever mais alguma coisa sobre isto, “vou morrer”.
São os pré-falecimentos da humanidade – ou de mim!