Nos últimos dias, são vários os pés que têm passado por Vila Nova de Poiares. Todos com o mesmo destino: o Santuário de Fátima. Uns caminham em pequenos grupos, outros em grupos maiores. Vêm de diferentes pontos do país, movidos pelo mesmo objetivo e guiados pela mesma fé.
Ao longo do mês de maio, as estradas enchem-se de peregrinos que enfrentam quilómetros de caminhada, noites mal dormidas e desgaste físico, numa viagem marcada pela devoção, pela promessa e pelo espírito de entreajuda.
Nos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Poiares, um dos pontos de apoio para quem segue em direção a Fátima, multiplicam-se os grupos que ali encontram descanso, alimentação e apoio logístico.
Entre eles está um grupo vindo de Peso da Régua, composto por cerca de 40 peregrinos e cinco elementos de apoio. António Gonçalves, um dos responsáveis, explica que o grupo nasceu da amizade e da vontade comum de caminhar.
“Uns gostam de caminhar, outros gostam de passear. Entretanto, fomos juntando amigos e acabámos por criar este grupo”, conta.
Com formação específica para guia de peregrinos em Fátima, António Gonçalves destaca a importância da preparação e da organização. O grupo caminha sobretudo durante a noite, saindo entre a uma e a uma e meia da manhã e terminando as etapas por volta das dez ou onze horas da manhã.
“De noite é muito melhor. Há menos trânsito, menos calor e conseguimos caminhar com mais segurança”, refere.
Apesar da experiência acumulada ao longo dos anos, António aponta dificuldades sentidas sobretudo no interior norte do país, nomeadamente a falta de estruturas de apoio aos peregrinos.
“O que notamos é falta de apoio. A partir de Condeixa já começamos a encontrar mais ajuda, mas no norte-interior há muita falta de condições para quem peregrina”, lamenta.
A logística é outro dos grandes desafios. Enquanto os peregrinos caminham, há uma equipa que praticamente não dorme para garantir refeições, apoio médico, transporte e descanso.
“Nós levantamo-nos às duas da manhã, mas quem está na logística já está acordado desde a meia-noite para preparar tudo. Eles fazem uma peregrinação tão difícil ou mais do que a nossa”, sublinha.
No grupo, as idades variam entre os 21 e os 78 anos. Há quem caminhe pela primeira vez e quem repita a experiência há décadas, mas todos encontram motivação na fé. “Sem fé não se faz isto”, resume António Gonçalves.
Também Tiago David, peregrino do mesmo grupo, destaca o espírito de união vivido ao longo do caminho e a forma como os elementos se ajudam mutuamente. “O grupo está bastante resiliente e o espírito de entreajuda é cada vez maior”, afirma.
Tiago David explica que a caminhada não se resume apenas aos quilómetros percorridos, mas também ao “ajudar a fazer gelo, a montar a cozinha, a carregar a carrinha, tudo isso é peregrinar”.
Sobre aquilo que encontram diariamente na estrada, deixa um apelo aos automobilistas: “Há pessoas que respeitam muito os peregrinos, mas outras parecem pensar ‘lá estão eles outra vez a atrapalhar o trânsito’. Nós tentamos ir sempre bem sinalizados, mas é preciso que haja paciência e cuidado”.
O peregrino recorda que, nos próximos dias, os grupos nas estradas serão ainda maiores: “Nós somos cerca de 40, mas a partir de amanhã vamos apanhar grupos de 200 pessoas. Queremos chegar todos lá seguros e com saúde”.
Também João Sousa, responsável por um grupo de 104 peregrinos vindos da Guarda, acredita que é a devoção que move centenas de pessoas todos os anos. “Quem mobiliza as pessoas é Nossa Senhora de Fátima, não sou eu”, afirma.
O grupo partiu da Guarda, no dia 5 de maio, e espera chegar a Fátima no dia 11. Pelo caminho, as dificuldades acumulam-se, mas a vontade de continuar sobrepõe-se ao cansaço.
“Os pés são o menos. O que interessa é a mentalidade, a força de vontade e a fé que temos”, diz João Sousa, que realiza esta peregrinação há 29 anos.
Entre os peregrinos segue também o senhor Almeida, estreante nestas andanças, mas já apontado pelos companheiros como um dos mais resistentes do grupo.
“Temos que agradecer à organização pela forma como nos recebe e pela alimentação. Dorme-se pouco, custa levantar às três ou quatro da manhã, mas a vontade faz tudo”, conta.
Além da fé, o percurso faz-se também de amizade e solidariedade. Há quem caminhe para cumprir promessas e quem siga apenas para acompanhar familiares ou amigos.
“Vou mais para fazer companhia a uma amiga que fez uma promessa”, revela uma das peregrinas.
Nos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Poiares, o cenário repete-se todos os anos. Carlos Henriques, presidente da direção da corporação, explica que dezenas de grupos passam por ali durante o mês de maio.
“Alguns já cá estiveram noutros anos. Fazem aqui refeições, descansam, tomam banho e depois seguem caminho”, refere.
A maioria dos peregrinos vem do norte do país, sobretudo de zonas como Peso da Régua, Guarda ou Figueira de Castelo Rodrigo, aproveitando a rota que atravessa Vila Nova de Poiares rumo a Fátima.
Além do acolhimento, há também uma preocupação crescente com a segurança rodoviária. Luís Sousa, comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Poiares, deixa um apelo aos automobilistas.
“Nestes dias há milhares de peregrinos nas estradas. Os condutores devem abrandar, estar atentos e ter paciência, sobretudo agora com a previsão de chuva”, alerta.
O responsável reconhece que os grupos estão hoje mais organizados e sinalizados, mas lembra que continuam a existir riscos.
“Os peregrinos já vêm com coletes refletores, lanternas e mais cuidados, e isso ajudou a reduzir as ocorrências. Ainda assim, basta um momento de distração para acontecer uma tragédia”, avisa.
Enquanto isso, pelas estradas do país, continuam a multiplicar-se os passos de quem segue rumo a Fátima. Uns por promessa, outros por devoção, mas todos com o mesmo objetivo: chegar ao Santuário em segurança.




