A aldeia da Ferraria de São João, no concelho de Penela, deu este sábado mais um passo para reforçar a proteção da sua população com a cerimónia de colocação da primeira pedra do abrigo comunitário, um equipamento que resulta de um protocolo iniciado em 2019, no seguimento dos incêndios de 2017.
Com cerca de 40 habitantes, a aldeia carrega um passado marcado pelo medo e um futuro que agora se constrói com esperança. À Beira Digital TV, duas moradoras, Maria Rodrigues e Sandra Lopes, não esconderam a emoção perante o avanço do projeto.
“Estou muito contente, há tanto tempo a ser prometido, pensávamos que nunca mais era feito”, afirmou Sandra Lopes.
Maria Rodrigues sublinhou que o abrigo representa “o reconhecimento de anos de esforço e de trabalho”, acrescentando: “Estamos mesmo muito contentes e muito gratas aos mecenas”.
O mecenas chama-se Jorge Mendes, um dos empresários mais bem-sucedidos do mundo do futebol, que é agora também sinal de esperança e de um futuro mais seguro para os habitantes da Ferraria de São João.
No seu discurso, Jorge Mendes recordou a motivação inicial do projeto: “Assistimos com horror à devastação provocada na região centro pelos incêndios que vitimaram 116 pessoas, 66 das quais em Pedrógão”. Disse ainda que procurou perceber de que forma poderia contribuir para evitar que situações semelhantes se repetissem.
Natural de Viana do Castelo, o empresário assumiu o compromisso de financiar integralmente dois abrigos comunitários: um em Ferraria de São João e outro em Muninhos Chimeiros, em Figueiró dos Vinhos. “O princípio destes abrigos é a prevenção ao invés da remediação”, sublinhou, explicando que os espaços pretendem “acolher, proteger e manter em segurança a população em casos de calamidade e, simultaneamente, funcionar como local de convívio no dia-a-dia”.
“Com este abrigo vamos sentir uma segurança completamente diferente”
As memórias de 2017 continuam bem presentes.
“Foi muito difícil, pensava mesmo que íamos ficar aqui. Houve uma altura que fiquei mesmo apavorada quando vi tudo a arder em toda a volta”, recordou Sandra Lopes.
Para Maria Rodrigues, a construção do abrigo muda a forma como olha para o futuro: “Naquela noite tememos mesmo pela nossa vida, pela dos nossos filhos, dos nossos vizinhos. E com este abrigo, se vier novamente um incêndio com aquelas dimensões, vamos sentir uma segurança completamente diferente”.
As duas moradoras destacam ainda o papel do mecenas. “Sem ele nada era possível, estamos muito agradecidas”, afirmou Sandra Lopes. Maria Rodrigues acrescentou: “Especialmente em territórios tão isolados como o nosso, ter um espaço onde as pessoas se sintam seguras é fundamental para terem vontade de viver aqui”.
Um equipamento para segurança e vida comunitária
O Abrigo Comunitário Jorge Mendes terá capacidade para acolher até 80 pessoas em situação de calamidade. Luís Teixeira, presidente da Associação de Moradores da Ferraria de São João, explicou que a obra deverá estar concluída num prazo que “não deverá ultrapassar os dois anos”.
Em condições de segurança máxima, o abrigo poderá acolher “cerca de 50 pessoas, podendo chegar quase às 80 em situação de calamidade total”.
Numa aldeia com menos de 40 habitantes, o projeto foi pensado também para turistas. “A base deste abrigo teve por base permitir todos os habitantes da aldeia, mas também comportar a existência de turistas”, referiu.
O presidente da Câmara Municipal de Penela, Eduardo Santos, considera que o abrigo responde a uma necessidade essencial: “Estou satisfeito por aquilo que o abrigo representa, pelo esforço coletivo que este momento representa e, acima de tudo, por resolver uma questão determinante para a população da Ferraria de São João e das aldeias vizinhas”.
O autarca sublinhou ainda que o edifício não foi pensado apenas como abrigo de emergência: “O desejo que formulo é que o abrigo nunca seja utilizado na sua principal valência, que é a questão da segurança, mas sim como sede da associação de moradores, como espaço de recreio”.
O espaço contará com camaratas, balneários, sala comum e loja da aldeia, assumindo também uma componente turística, numa localidade classificada como World Best Tourism Villages. “Queremos que este abrigo seja muito mais do que um abrigo, que seja um espaço que possa ser vivenciado durante todo o ano”, afirmou.
Para Luís Teixeira, o abrigo integra uma estratégia mais ampla: “Já temos uma Zona de Proteção da Aldeia, já temos meios técnicos de combate ao fogo e passamos agora a ter um abrigo que, em situação de calamidade, protege todos os habitantes”. Paralelamente, permitirá “momentos de lazer, culturais e recreativos, rentabilizando o investimento que está a ser feito”.
Um gesto que não se mede
A gratidão a Jorge Mendes é incontável. O empresário vai investir 300 mil euros mais IVA na construção do abrigo. “Chegou o momento da obra avançar”, disse Jorge Mendes, explicando que abraçou o projeto “com sentido de responsabilidade cívica e social”.
No final, deixou dois desejos: “Que outros cidadãos ou entidades sigam este exemplo e promovam projetos idênticos” e que os abrigos “sejam apenas utilizados para fins recreativos”.
Eduardo Santos destacou ainda a persistência do mecenas, Jorge Mendes: “Desde 2019 nunca desistiu, nunca abaixou os braços, manteve sempre a convicção e pressionou para que o projeto chegasse a este momento”, lembrando que foi também o empresário quem encontrou o empreiteiro. “Há aqui um nunca desistir que tem de ser alvo de reconhecimento público”.
Já Luís Teixeira resumiu o sentimento da aldeia: “Há gestos que não se comentam, recebem-se e retribuem-se com amizade e afetos”.
Um investimento de 300 mil euros
O abrigo da Ferraria de São João representa um investimento de 300 mil euros mais IVA, totalmente suportado por Jorge Mendes. O projeto envolve a Câmara Municipal de Penela, a Associação de Moradores da Ferraria de São João, a AVIPG – Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande e a ADAI, entre outras entidades técnicas.
A obra será construída num terreno no centro da aldeia, ficando a dinamização a cargo da associação de moradores, com apoio do município na fiscalização, manutenção e funcionamento.
Mais do que um edifício, o abrigo surge como símbolo de resiliência e de esperança para uma aldeia que, depois de 2017, procura continuar a viver com mais segurança — e com a confiança de que a memória da tragédia se transformou, finalmente, em ação concreta.