Investigadores, pescadores, autarquias e entidades ambientais participaram numa nova ação de translocação de lampreias no rio Mondego. Trata-se de uma iniciativa que pretende ajudar a recuperar uma espécie em declínio e preservar um recurso considerado importante para a economia e gastronomia da região Centro.
A ação decorreu no Louredo Natura Parque, em Vila Nova de Poiares, e permitiu a libertação de 32 lampreias adultas em zonas a montante da ponte-açude de Coimbra, para facilitar a reprodução da espécie em áreas consideradas mais adequadas para a desova.
A iniciativa integra o projeto europeu DALIA e o programa “Life for Lamprey”, promovidos pela Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra, com apoio da Universidade de Évora, Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), GNR e pescadores profissionais.
Segundo o vice-presidente da Região Metropolitana de Coimbra, Ricardo Cruz, o projeto representa um investimento superior a 100 mil euros e permitiu já a translocação de mais de 120 lampreias no Mondego.
“O objetivo foi concretizado”, afirmou, salientando que o projeto procura criar condições para contrariar a perda populacional da espécie e melhorar o seu habitat natural.
Ricardo Cruz explicou que as ações procuram ajudar as lampreias adultas a ultrapassar obstáculos existentes no rio, nomeadamente a ponte-açude de Coimbra, permitindo que os animais cheguem a zonas mais favoráveis à reprodução.
Escassez ameaça festivais e economia local
O responsável destacou ainda o impacto económico associado à lampreia nos concelhos ribeirinhos do Mondego, defendendo que a preservação da espécie é fundamental para manter festivais gastronómicos e atividades ligadas ao turismo.
“Não basta promover os festivais. É preciso preocuparmo-nos com o produto a montante, garantindo que não existe escassez”, afirmou.
Nos últimos anos, vários eventos associados à lampreia enfrentaram dificuldades devido à diminuição das capturas e às condições meteorológicas adversas. O Festival da Lampreia de Penacova foi cancelado no ano passado e Montemor-o-Velho também enfrentou constrangimentos relacionados com cheias e tempestades no início de 2026.
Ciclo de vida da lampreia demora até sete anos
A investigadora da Universidade de Évora, explicou que a lampreia marinha passa entre seis e sete anos no seu ciclo de vida, começando por permanecer enterrada nos rios em fase larvar antes de migrar para o mar e regressar posteriormente para reprodução. “Cada lampreia fêmea pode pôr entre 70 mil e 100 mil ovos”, afirmou.
Segundo a investigadora, as larvas desempenham um papel importante na recuperação da espécie, libertando sinais químicos que ajudam as lampreias adultas a identificar os rios adequados para regressar à desova.
Salientou, ainda, que os resultados destas ações só poderão ser plenamente avaliados dentro de vários anos, embora exista monitorização contínua no Mondego desde 2013.
A investigadora reconheceu também que o número de animais disponíveis para translocação tem diminuído significativamente. “Há dez anos atrás, para libertar 32 lampreias bastava um pescador pescar uma noite. Este ano demorou semanas para reunir estes animais”, disse.
Rafael Norinho, representante da empresa Irmãos Norinho, que colabora na captura, armazenamento e transporte dos animais, afirmou que os pescadores e operadores do setor têm procurado adaptar-se às exigências de conservação da espécie. “Temos de respeitar os ciclos das coisas e não ser gananciosos”, afirmou.
Rafael defendeu que a sustentabilidade é hoje uma prioridade para o setor, considerando essencial envolver pescadores, investigadores e consumidores na preservação da lampreia.
“Não se pode só proibir para ver se isto corre bem”, afirmou, defendendo medidas equilibradas entre conservação ambiental e atividade económica.
Entre as possíveis causas para o declínio da espécie, os participantes apontaram alterações climáticas, obstáculos à migração, alterações ambientais e eventuais fatores biológicos ainda em estudo.
Projeto chega ao fim, mas continuidade está em aberto
“O processo financiado encerrou, mas estamos disponíveis para procurar novas candidaturas que permitam dar continuidade a este trabalho”, afirmou Ricardo Cruz.
Além das ações de translocação, o projeto prevê a identificação de zonas prioritárias para proteção larvar — os chamados “santuários” — e a elaboração de orientações para gestão sustentável que possam ser aplicadas noutras bacias hidrográficas.
Segundo os responsáveis, o objetivo passa também por sensibilizar a população para a importância ecológica da lampreia e para a necessidade de preservar os ecossistemas fluviais associados ao rio Mondego.


