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Crónicas

#02. Ya, tipo, bué cringe, né?

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A comunicação. Ação que possibilita a transmissão de ideias, mensagens e   compartilhamento de informações. Uma habilidade ímpar que possibilita estabelecer entendimento…, mas somente para alguns indivíduos. Tenho em mim que, quanto mais o tempo se esvoaça, sinto que estou a perder esta magnífica qualidade. E não é falta de uso, porque até falo demais. O meu dilema é que existem mais dialetos e não tive tempo para me adaptar a eles. Não sou assim tão vetusto, mas também não sou assim tão mancebo… e muito menos amancebado, para que conste. Por isso, decidi usar as poucas faculdades cognitivas que ainda possuo para desbravar o caminho da linguística, sendo assim de ajuda para outros que pretendam comunicar-se com todos os dialetos que nos apertam…muitas vezes com vigor.

Desta feita, apresento-vos o novo Dicionário de Língua Portuguesa que criei com algumas palavras e expressões que encaro no dia a dia. O livro é denominado por “Eeeeeeeee que bagunça que p’ra aqui vai…”. Este livro conta com o auxílio imprescindível do Licenciado em Polilinguística Aplicada e Dialetologia Avançada, Sua Excelência, o Dr. Quim Simplório. A explanação de cada expressão dialética tem base na sua pesquisa e conhecimento penetrante.

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Na reunião prévia que ambos tivemos, com o objetivo de nos debruçarmos sobre o conteúdo deste compêndio, o Dr. Quim Simplório foi muito direto a referir que existe um flagelo linguístico ao dizer, e cito, “andam os pais a pagar a escola para estes chavalos, para depois não saberem a ponta dum xaveco de português, né”. Embora erudita, a sua apreciação denota uma descomunal apreensão sobre a carência de aproveitamento escolar que, com efeito, leva os mais novos a tentar encontrar meios de comunicação alternativos.

Com o intuito de promover este novo Dicionário de Língua Portuguesa, Sua Excelência, o Dr. Quim Simplório, cedeu-nos de antemão o prefácio que premeia este compêndio. Peço, por favor, ao caro leitor, que desfrute das explanações históricas e filosóficas, concedidas pelo Dr. Quim Simplório. A profundidade dos seus conceitos elevados, pode pasmar os leitores mais percetíveis. Passo a transcrever:

Ilustração de Samuel Perdigão

[Início da transcrição]

Prefácio do Dicionário de Língua Portuguesa “Eeeeeeeee que bagunça que p’ra aqui vai…”

“Portugueses e fiéis seguidores da língua do Camões.

Eu, normalmente, não me estou para chatear, né. Mas como estes putos andam a abusar, não tive outro remédio, né.

A língua portuguesa, no meu tempo, era espetacular. Naquela altura, havia palavras boas, né. Palavras que até já vinham do tempo dos meus pais e dos meus avós, né. Até digo mais, essas palavras são uma herança que eles deixaram para mim e para toda a população de Fagaró dos Tórdos e até para Portugal, né. Por cá tem andado tudo calmo, né, a nível de palavras e expressões, né, até ao dia em que a minha sobrinha de Lisboa veio passar as férias escolares na aldeia. Ainda me lembro como se fosse hoje, né. Ela desce do autocarro, olha para mim com aquele olhar de “mais-valia não ter vindo” e diz:

– “Oi, tio. Tá-se?”

TÁ-SE? Esta pirralha lançou-me um Tá-se. E o resto da palavra, pá? A partir desse dia, comecei a olhar-lhe de lado, né.

No jantar, ainda tentei dar uma desculpa desta grande ofensa à língua do Camões, né e perguntei-lhe:

– “Então menina, gostas de estar com o tio?”

– “Ya”

YA? Agora, esta macambúzia lança-me um Ya? Eu não aguentei, né e disse-lhe:

– “Ó menina, não te admito que desrespeites a língua do Camões e a herança da população de Fagaró dos Tórdos, né”!

Ao que ela diz:

– “What? Isso é bué cringe!”

E eu passei-me da cabeça.

A partir desse dia, tenho a minha sobrinha internada no Centro João Cascalho, né, local onde são internados todos os jovens que desrespeitam a língua portuguesa, né. João Cascalho é um exemplo de um jovem de Fagaró dos Tórdos que aprendeu a falar bom português, né, depois do pai ter lhe dado com uma câmara d’ar no focinho. No centro, a minha sobrinha só tem acesso a uma sanita, a uma pia e ao livro dos Lusíadas e enquanto ela não souber os cantos todos, de lá não sai, né. E ai dela, né, se disser, quando sair, que no Centro João Cascalho não havia uma “boa vibe”. Eu dou-lhe a vibe, dou!

Por isso, ranhoso, vê se lês este dicionário de uma ponta à outra, né, se não, terás atrás de ti Fagaró dos Tórdos em peso. Putos de um raio, né!”

[Fim de transcrição]

Hummmm…bom. Após saborear o conteúdo deste belíssimo preâmbulo, né, fiquei mais elucidado da relevância do uso da linguagem da sua Excelência, Luiz Vaz de Camões, para uma sociedade próspera e protegida de TÁ-SE, YA, BUÉ e CRINGE, né.

Um bem-haja, né, a toda a população de Fagaró dos Tórdos.

E assim, se fala bom português.

Né!

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André Sousa

André Sousa, navegante das marés incertas da esclerose múltipla, tece pensamentos desalinhados que desabrocham em reflexões profundas e paradoxais, ou, por outras palavras, uma autêntica estupidez.

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