Em Pampilhosa da Serra já se acenderam as fogueiras, sente-se o cheiro do mato e voltam a ouvir-se as concertinas. Até 21 de dezembro, o Natal Serrano afirma-se novamente como “o mais genuíno de Portugal”, recriando tradições da serra num ambiente que dispensa artifícios.
“Nós não precisamos fingir, nós somos verdadeiramente uma vila Natal”, afirma o presidente da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra, Jorge Custódio. Rodeado pelo mato espalhado no chão e pelo aroma a lenha, o autarca explica que o evento pretende replicar o quotidiano serrano de outros tempos: “Este cheiro da fogueira, o cheiro do mato… quem vem aqui percebe que este Natal é verdadeiramente o mais genuíno.”
Em 2024, o evento recebeu cerca de 14 mil visitantes e consumiu 1.500 kg de farinha para as tradicionais folhoses. Números que, segundo Jorge Custódio, “sabem sempre a pouco”, mas que revelam o impacto regional: “Trazer 14 mil pessoas à serra numa semana e meia é obra.” Este ano, a expectativa é ultrapassar esses valores, tanto em visitantes como na confeção das Filhós.
A massa, amassada por voluntárias das oito juntas de freguesia, tem um propósito solidário. “O valor financeiro reverte na íntegra para duas IPSS locais”, sublinha.
A animação ocupa um papel central. Durante toda a semana há concertinas, ranchos e grupos locais, mas também artistas nacionais. “Tentamos ser o mais genuínos, mas trazer alguns nomes de cartaz ajuda a captar mais visitantes”, refere o autarca, destacando que “atrás desses nomes vem sempre mais gente, que depois acaba por conhecer o Natal Serrano.”
O espetáculo de abertura contou com a participação de talentos da terra e das jovens Luciana e Micaela. “Tentámos passar esta mensagem do Natal acolhedor, dos cheiros, da ligação da serra às estrelas, quase ao jeito da Disney”, descreve o presidente.
Barro preto: tradição de Poiares que resiste
No Mercadinho de Natal, onde mais de duas dezenas de artesãos expõem os seus produtos, encontra-se o barro preto de Fernando Correia, artesão do concelho de Vila Nova de Poiares. “É barro como qualquer outro, a diferença é que trabalhamos o barro para ele ficar preto da forma mais natural possível, através de processos antigos”, explica.
Nas bancas, há caçoilas, tachos e tabuleiros usados para pratos tradicionais como o chispe ou o pernil de cabra no forno. Habituado ao evento, Fernando elogia o crescimento: “Isto está muito mais giro, bonito, acolhedor. As pessoas deviam vir conhecer.”
Filhós Espichadas: o segredo está na massa… e na prática
Na freguesia de Janeiro do Baixo, onde decorre o Festival da Filhó Espichada, Filomena Marcelino prepara uma das iguarias mais procuradas. Questionada sobre o segredo, responde sem hesitar: “O segredo é deixar levedar. O ponto em que fica a massa é tudo.”
Os ingredientes base são simples — farinha, ovos e açúcar — mas há “umas coisinhas que é segredo”, admite com um sorriso. Cada grupo tem a sua receita: “Isto é que é engraçado, na mesma freguesia a receita não é igual.”
A técnica de “espechar” a massa requer experiência. “Eu já tenho muita prática, já fiz muita filhó. Isso ajuda a esticar melhor a massa”, explica, acrescentando que as mãos devem estar untadas com azeite.
Só no primeiro dia já tinham feito mais de 120 filhós. A venda reverte para instituições do concelho, um esforço que as participantes abraçam com orgulho: “Nós só fazemos, o dinheiro vai para as instituições.”
Entre música, teatro, gastronomia e artesanato, o evento aposta na autenticidade e no envolvimento da comunidade. Há ainda atividades infantis na Eira da Brincadeira, uma pista de gelo e concertos de Saúl (12), Santamaria (13), Marotos da Concertina (19) e Vizinhos (20).
Os bilhetes variam entre 1€ e 2€ durante a semana e fim de semana, respetivamente, sendo gratuito até aos 11 anos. O passe geral custa 12€.
Na despedida, Filomena e as colegas deixam um convite simples: “Passem, não se vão arrepender. E vão deliciar-se com estas filhós quentinhas.”
O Natal Serrano decorre até 21 de dezembro e o programa completo está disponível no site oficial.