Entrevista a Diogo Carvalho: “Fazer teatro em Portugal ainda é um grande desafio”

Diogo Carvalho @Beira Digital TV

Até 10 de agosto, a companhia AtrapalhArte marca presença na 33ª edição da Expofacic, em Cantanhede. Diogo Carvalho é o atual diretor artístico e, em entrevista à Beira Digital TV, falou sobre o percurso da companhia, os desafios do teatro em Portugal e as novidades que estão para breve.

“Fazer teatro em Portugal ainda continua a ser um grande desafio”, disse Diogo Carvalho, sublinhando que este trabalho “às vezes é quase como matar um leão”. Ainda assim, o balanço é positivo: “A verdade é que está a correr bem. Temos já muitos espetáculos a começar a ser agendados.”

A companhia, que inicialmente se focava no público infantil-juvenil, está a alargar horizontes. “Começámos a mudar um bocadinho a linha estética. Passámos agora a trabalhar muito na área do teatro musical, que é uma coisa que está em crescimento em Portugal”, explicou. Um dos exemplos desse alargamento é o espetáculo “António Sala – O Musical”, que continua em digressão nacional.

Entre os espetáculos programados para breve, destaca-se uma nova adaptação de A Bela Adormecida, assinada por Fernando Gomes, com uma abordagem contemporânea. “Não é aquele clássico Disney que nós conhecemos. É uma Bela Adormecida all-stars”, disse Diogo. Para o público geral, está também a ser preparado o musical Cabaret da Irmã Anita, descrito como “uma grande comédia, muito inspirada nas revistas portuguesas” e nos musicais da Broadway.

Outro projeto marcante da companhia é Velhos São os Trapos, espetáculo que percorre o país há cinco anos e que terá a sua última apresentação da primeira saga a 18 de outubro, no Grande Auditório do Conservatório de Música de Coimbra, com bilhetes disponíveis a partir de 1 de setembro. “Já fizemos mais de 100 espetáculos de norte a sul do país”, referiu Diogo. A continuidade desta história já está garantida: “Vamos estrear Velhos São os Trapos 2, em 2026. A vida não termina, simplesmente se transforma.”

Diogo Carvalho recordou também Amália – O Musical, um projeto que considera muito especial: “Era um sonho meu desde os 14 anos. Aos 28 consegui concretizá-lo.” O espetáculo terminou em 2023, no Festival de Teatro Amador em Cantanhede, e teve passagens memoráveis como o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, onde Amália Rodrigues se despediu dos palcos. A produção chegou até ao Brasil, onde representou Portugal num festival internacional em São Paulo, em 2022.

Com 13 anos de história, a AtrapalhArte começou com o objetivo de levar o teatro às escolas, quando “muitas vezes as escolas não vão ao teatro”. Hoje, é uma companhia profissional com vários espetáculos em digressão e uma equipa em crescimento. Para o novo ano letivo, está prevista a abertura de audições em setembro. “Vamos abrir uma grande audição para escolher os atores para as próximas produções, que são muitas”, revelou.

Entre os novos projetos estão também Peripeças – A História de Portugal e uma adaptação de O Gato e o Rato que se Tornaram Amigos, baseada na obra de Luís Sepúlveda. A companhia vai abrir em setembro audições para selecionar artistas com mais de 18 anos, que saibam representar e cantar, e com alguma capacidade para dançar. “Dançar não é obrigatório, mas também não podem ser um pé de chumbo”, brincou.

O teatro musical tem ganho expressão em Portugal, e Diogo Carvalho sublinha o contributo de nomes como Filipe La Féria para esse crescimento. “Em Lisboa, a expansão dos musicais já é extremamente grande. Aqui na região de Coimbra já vamos tendo grupos a fazer isso”.

Apesar da crescente adesão do público, o diretor artístico não esconde as dificuldades: “Fazer musicais em Portugal ainda não é fácil porque não é apoiado. O Estado olha muito para o teatro musical como teatro comercial, e não como modelo de criação.” Defende, por isso, um maior reconhecimento e financiamento por parte das entidades públicas. “As composições são todas originais, as letras são todas originais. Porque é que não pode ser financiado?”

Para além dos espetáculos, a companhia dinamiza formações de teatro nas escolas da região centro, através das Turmas Atrapalharte. As inscrições abrem em setembro, com início das aulas previsto para outubro.

A companhia Atrapalharte marca presença na Expofacic até dia 10 de agosto, onde os visitantes podem conhecer mais sobre o seu percurso e os projetos futuros. Como Diogo conclui: “Nunca devemos desistir dos sonhos. Sonhar é sempre possível.”

Artigos relacionados