O Museu Nacional Ferroviário, no Entroncamento, acolheu ontem a conferência “Turismo Industrial e Ferroviário”, que reuniu responsáveis institucionais, investigadores e especialistas nacionais e internacionais para debater o papel da ferrovia enquanto recurso turístico, cultural e económico.
O encontro marcou também o arranque público do projeto “Viajar no Tempo, Ferrovia entre o Vouga e o Dão”, iniciativa que visa valorizar o património ferroviário dos territórios de Vouzela, Tondela e Oliveira de Frades, através da criação de experiências turísticas diferenciadoras e sustentáveis.
Na sessão de abertura, o presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário, Manuel de Novaes Cabral, destacou a importância de acolher esta reflexão “num dos melhores museus ferroviários do mundo”, sublinhando ainda que “o turismo não seria o mesmo sem o comboio”.
Por sua vez, Guiomar Messias, chefe de gabinete do presidente da Câmara Municipal do Entroncamento, salientou a ligação histórica da cidade à ferrovia e defendeu que “o património ferroviário tem a capacidade de contribuir para a dinamização económica e para a promoção dos territórios”.
Já Teresa Ferreira, diretora do Departamento de Dinamização da Oferta e dos Recursos do Turismo de Portugal, destacou a dimensão supramunicipal do projeto, referindo que “é com agrado que o Turismo de Portugal apoia este projeto”.
A encerrar a sessão de abertura, Carlos Oliveira, presidente da Câmara Municipal de Vouzela e líder do consórcio, afirmou tratar-se de “uma iniciativa estruturante para o território”, sublinhando o seu potencial para preservar e valorizar o património ferroviário e criar novas experiências para visitantes.
A conferência organizou-se em três painéis temáticos ao longo do dia, centrados na articulação entre memória, inovação e futuro da ferrovia.
O primeiro painel, dedicado ao projeto “Viajar no Tempo, Ferrovia entre o Vouga e o Dão: uma história para contar”, juntou representantes institucionais e territoriais. Moderado pelo jornalista Diogo Ferreira Nunes, destacou o papel da ferrovia como elemento identitário e base para narrativas turísticas diferenciadoras.
Anabela Freitas, vice-presidente da Turismo Centro de Portugal, afirmou que o projeto está alinhado com a estratégia da entidade, sublinhando que “o turismo industrial tem a capacidade de provocar impactos positivos nas comunidades”. Também Nuno Martinho, secretário executivo da CIM Viseu Dão Lafões, destacou a importância das ecopistas do Dão e do Vouga, com 115 quilómetros de vias pedonais e cicláveis, referindo que estas “são portas de entrada muito importantes para quem visita a região” e que o novo projeto será “mais uma camada, mais um foco de atração”.
Os autarcas Carlos Oliveira (Vouzela), Carla Antunes Borges (Tondela) e João Valério (Oliveira de Frades) sublinharam igualmente a importância da cooperação entre municípios para reforçar a atratividade do território.
Ainda neste painel, Manuel de Novaes Cabral referiu que, com a perspetiva da alta velocidade, “estamos num novo momento da ferrovia em Portugal”, expressando também a expectativa de reativação de linhas desativadas e recordando que “toda a gente tem histórias ligadas ao comboio”.
A manhã terminou com uma visita ao Museu Nacional Ferroviário.
O segundo painel, dedicado ao tema “Turismo industrial: tendência e sustentabilidade”, abordou a crescente relevância deste segmento turístico. Moderado pelo professor Paulo Carvalho, contou com apresentações de projetos desenvolvidos em Portugal e em Espanha.
Teresa Ferreira apresentou a Rede Portuguesa de Turismo Industrial, seguindo-se intervenções de representantes do Museu del Ferrocarril de Móra la Nova (Catalunha), do Município de São João da Madeira, do Museu de Portimão e da consultora El Generador (Barcelona), que deram a conhecer iniciativas distinguidas e premiadas na área do turismo industrial e cultural.
O terceiro e último painel, sob o tema “Património ferroviário: um passado com futuro”, centrou-se na reinterpretação do legado ferroviário. Moderado por Margarida Magalhães Ramalho, contou com a participação de Pedro Moreira, presidente da CP – Comboios de Portugal, Neil Peterson, consultor do projeto Railway 200 (Reino Unido), António Brancanes dos Reis, da APAC, e Pascal Keiser, comissário da Capital Europeia da Cultura Bourges 2028.
As intervenções destacaram o potencial da ferrovia na promoção cultural e turística, bem como o seu contributo para a descarbonização e para novas estratégias de desenvolvimento territorial.