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Crónicas

#12 – A.B.U.T.R.E. – “Acreditamos no teu potencial… e no teu IBAN!”

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Então não é que a humanidade tem demonstrado de forma mais vigorosa o “amor” pelo seu próximo? É, caro leitor. Aqui eu não poupo nos elogios… nem nos erros ortográficos. Prova disso, são certas associações que criam atividades para que pessoas com deficiência intelectual possam estar ocupadas.

Por exemplo, analisem a A.B.U.T.R.E. (Associação Baseada na Utilização de Trabalhadores em Regime Especial) sediada em Vila Nova do Carrascão. De acordo com números recentes de 1982, esta associação tem ajudado mais de 851 pessoas com deficiência mental, dois tios do Presidente da Direção e um sardão que vive numa vivenda em Esposende.

Chulomiro Pires, Presidente da Direção e um dos fundadores da associação A.B.U.T.R.E., dirige esta coletividade com o amor tão característico e tão conhecido por quem lhe é próximo. “Eu ainda me lembro de estarmos na tasca do “Bem te Quero”, a olhar para o Ruizinho, o filho do Jorge, o dono da tasca, que tem um problema na mona e de pensar: “Epá, mando vir mais uma imperial ou uma caneca?”, e também “Ninguém vai dar trabalho àquele trambolho, pá!” e foi aí que surgiu a ideia de criar a A.B.U.T.R.E. Peguei logo num guardanapo que estava ali à mão, escrevi a ideia e foi carimbado com tinta de cerveja quando o rapaz pousou a imperial em cima do guardanapo.”

Desde esse dia, Chulomiro Pires, recebe na sua fábrica de calçado, todos aqueles que possuem alguma deficiência intelectual. “Eu não gosto de excluir ninguém…, mas estes são os mais fáceis de trabalhar. Por exemplo, eu digo ao Otávio: “Otávio, hoje vais para a secção da montagem”. Se ele fosse um gajo que puxasse pelos neurónios, de certeza que iria me perguntar se eu poderia facultar uma máscara por causa do cheiro da cola de sapateiro, mas como ele não percebe isso, nem quem são os pais, por que fui eu que o achei no contentor dos descartes, ele vai logo sem perguntar. E, por causa disso, sem ele saber, estará a fazer duas atividades. Quais? Eu coloco na secção de montagem um alguidar gigantesco cheio de cachos de uva e quando o Otávio já está passado da cabeça com o cheiro da cola de sapateiro…pumba…começa a dançar uma música imaginária qualquer e vai pisando as uvas. Deviam ver a alegria do homem, pá. A única coisa que tenho pena é que, como ele baba-se muito, o vinho depois sai com um gosto característico de papas de aveia. Mas pronto…são sacrifícios que faço pela alegria dos outros.”

A alimentação é uma das preocupações principais. “No lanche é meio papo-seco com margarina e um chá…, mas chá preto, porque eu não quero ninguém a dormir, podendo não aproveitar das atividades lúdicas proporcionadas para o seu benefício.”

E é claro que a gratificação pelo seu trabalho é ricamente recompensada. “Eu sou justo e gosto de tratar todos com justiça. Todos eles pagam um valor mensal pelas atividades que eu lhes proporcionei. Para os mais participativos peço 70€ e para os menos participativos 150€. Eu sou sincero: eu digo sempre a eles: “Ó gente meia coiso: quanto mais vocês participarem nas atividades de Armazém e Logística, Corte de Materiais, Costura das Partes Superiores, Montagem e Aplicação da Sola e Acabamentos, será mais benéfico para vós.”  Até lhe digo, no fim de cada ano, como até gosto deles, costumo dar a cada um par de sapatos e uma garrafinha de vinho onde os cachos foram pisados com os pés e com as frieiras do Ótávio. Vou dizer: a secreção salivar de papa de aveia com um travozinho de frieira mal lavada, supera em muito o vinho de pacote do pingo doce. Eles é que dizem: mas como eles são meios coiso, não ligava assim tanto”.

Devido ao aumento exponencial nos lucros registados este ano, Chulomiro Pires, promete fazer um grande investimento em prol do bem-estar dos beneficiários. “Eu estou em condições de dizer que foi aprovado por unanimidade em Assembleia Geral, ou seja, eu, os meus dois tios e o sardão de Esposende, em comprarmos um garrafão de água alcalina…e não é aquela porcaria da água de torneira…é alcalina…para que aqueles coisitos possam se refrescar durante as atividades lúdicas. Eles são os meus amores, digam o que disserem!”

Por isso, caro leitor, espero ter conseguido restaurar a sua “fé” na humanidade. Somente com a atitude de pessoas como Chulomiro Pires que conseguiremos fazer um mundo melhor.

Ajude esta associação por comprar os sapatos ABUTRE em aburte.umdiavouficarrico.pt ou por fazer um donativo para o IBAN PT50 0002 0123 1234 5678 9015 4. A direção aceita somente donativos acima dos 500€.

Compre ABUTRE e não apoie abutres!

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André Sousa

André Sousa, navegante das marés incertas da esclerose múltipla, tece pensamentos desalinhados que desabrocham em reflexões profundas e paradoxais, ou, por outras palavras, uma autêntica estupidez.

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