Quando eu era adolescente, eu vivia num bairro social requintado – o edifício tinha escadas de mármore, um jardim na frente, um velho maluco que batia na mulher acamada durante a noite e um drogado que foi dormir enquanto fritava batata frita e incendiou o apartamento acima do meu. Portanto, não tenho nada a dizer.
A única coisa que tinha a apontar era uma senhora que morava no edifício ao lado, que gostava muito de fazer perguntas… em demasia. Era a senhora Alice, a gorda, que sempre que havia uma discussão na rua, lembrava-se de que deveria varrer a parte da frente do prédio. Ela tinha conversas tais como: “Oi, meu querido. Estás tão lindo! A mãe já foi trabalhar? E o pai, já está na reforma?” Eu achava este tipo de conversas muito estranhas, até que o meu pai me disse o seguinte: “Esta senhora sabe muito”! Sabe muito? Se sabe, onde aprendeu? Ele nunca soube me responder. Mas isso acaba hoje!
Estive infiltrado na parte mais obscura desse mundo, e venho vos despejar este monte de informação imunda que abraça a cusquice, fofoquice, coscuvilhice, bisbilhotice e a bilhardice, para que possam fugir a sete pés destas senhoras… não se preocupem porque também elas não correm muito.
Todos nós temos perto de nós uma cusca, nem que seja na vizinhança ou no trabalho – aquela pessoa que coloca o copo de vidro entre a parede e o ouvido ou aquela pessoa que quando entra num espaço que nós estamos transforma os seus pés em lã pura, eliminando qualquer ruído para passar despercebida. O seu radar, as orelhas, sintonizam a uma distância tão grande a ponto de fazer ciúmes aos elefantes. É impressionante! Essas pessoas, normalmente, não se contentam com um simples “bom dia”, por isso, muito de nós, até nem fazemos barulho ao entrar em casa só para não ouvir “boa noite. Estiveram fora! Divertiram-se?”
Por isso, eu pensei: “Nem a CIA tem uns agentes como estes! Alguém as deve treinar!”. Após longos dias de investigação, acabei por descobrir que existe uma universidade em Trás-os-Montes que treina potenciais coscuvilheiras – é na C.U.S.C.A. (Curiosas Universitárias Sempre a Coscuvilhar Alheios) Todas as pessoas que se formam na Universidade C.U.S.C.A. – Instituto Superior de Observação de Coscuvilhice Aplicada, possuem logo um emprego garantido como vizinho num bairro social, numa portaria, num cabeleireiro ou até mesmo como informador da PJ ou do CIS.
Quais são as táticas usadas por estas agentes? Passo a descrevê-las. Para isso, contei com a ajuda da Dona Clarisse Montarraz, licenciada e professora do Instituto Superior de Observação de Coscuvilhice Aplicada, que está neste momento a fazer uma tese sobre o vizinho da frente que vomita sempre no tapete da entrada do prédio. Comecemos com a primeira:
1ª Técnica – A pergunta indireta
“Então, como é que vão as coisas lá em casa? Está tudo bem por lá?”
O objetivo é fazer com que a pessoa ingénua fale da sua vida sem se aperceber de que está a revelar pormenores importantes. Vamos a um exemplo:
CUSCA: “Olha que há dias vi o teu marido no café sozinho… Coitado, devia estar a precisar espairecer, não?”
INGÉNUA: “Oh, nem me diga! Andamos numa fase complicada…”
Pronto! Já foste apanhado!
2ª Técnica – O elogio
“Estás com um ar tão feliz ultimamente! Alguma novidade boa?”
O objetivo é criar um ambiente positivo para que a pessoa ingénua baixe a guarda e conte o que sabe. Vamos a um exemplo:
CUSCA: “Tu estás com um brilho especial! Deve ser felicidade… Ou há aí novidades boas?”
INGÉNUA: “Nem me fales, ainda nem contei a muita gente, mas sim, estou grávida!”
Pumba! Venha outra!
3ª Técnica – O falso segredo
“Olha, eu só te conto isto porque confio em ti… Mas ouvi dizer…”
O objetivo é fingir que já sabe algo para ver se a pessoa ingénua confirma ou adiciona mais detalhes. Vamos a um exemplo:
CUSCA: “Acho que o patrão anda preocupado com certas pessoas da empresa… Mas não sei ao certo. Tu que estás mais próxima, já ouviste alguma coisa?”
INGÉNUA: “Ui, nem me digas! Já ouvi dizer que o Ricardo pode estar na mira…”
Golooooo! Mais uma volta!
4ª Técnica – O isco inocente
“Vi o Rui com uma rapariga no outro dia… Mas se calhar era prima dele, não sei.”
O objetivo é lançar uma informação vaga para ver se a pessoa ingénua confirma ou corrige. É como o meu pai costuma dizer: “Manda verdes para ver se apanha maduras.” Vamos a um exemplo:
CUSCA: “Ah, no sábado passei pelo shopping e acho que vi o Rui com uma rapariga… Mas nem reparei bem.”
INGÉNUA: “Oh, claro que viste! Ele anda com a Patrícia há meses, pensava que já sabia!”
Mais uma ficha, mais uma volta!
Isto foi apenas o que consegui obter por parte da Dona Clarisse, pois a meio da entrevista, tinha chegado o vizinho dela, na qual ela o intitula de “porco”, e ela teve de voltar para o seu posto de trabalho – olhar pelo olho mágico.
Mas, como tudo na vida, acho que este Instituto poderia empregar estas seniores em outros setores, como por exemplo, nos institutos bancários. Por mim, retiravam-se as câmaras de vigilância desses estabelecimentos e colocava-se uma Dona Clarisse no interior de cada banco com acesso a uma cadeira de baloiço, uma televisão com antena com um naperon e um galo de Barcelos em cima, com acesso apenas ao Preço Certo e há CMTV. Se caso entrasse algum gatuno de noite, a conversa seria algo do género:
PUMMMMMMMMM
GATUNO 1: Vamos! Vamos! Temos apenas 3 minutos antes da bófia vir.
GATUNO 2: Vai para o cofre!
CUSCA: Muito boa noite meus queridos! (espanto) Olha se não é o Carlos, o filho da Alcinda. Estás tão grande! (espanto) E tu és um Jorginho. Eu ainda cheguei a te pegar ao colo. Olha, tu tiveste lá fora. Lá ganhasse muito dinheiro?
GATUNO 2: Tem dias, Dona Clarisse! Olhe, nós temos um bocado de pressa.
CUSCA: Mas eu já não vos vejo há muito tempo. O teu pai ainda está vivo? E a tua irmã ainda já se tratou da depressão? A tua mãe já está na reforma? (os dois acabam por fugir) Olha, olha, são mesmo mal-educados. Pudera, com uma família daquelas com um pai bêbado que bate na mãe e com as companhias que ele tem. Aiiii meu deus do céu!
Acredito que nunca mais havia assaltos.
Por isso, inscreve-te já na Universidade C.U.S.C.A. – Instituto Superior de Observação e Coscuvilhice Aplicada. Inscrições abertas até março de 2025. Ouvi dizer. E se não for, foram as más-línguas. Apre!
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