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Crónicas

#03 – A idosa doente, mais saudável do mundo

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Todos nós possuímos necessidades básicas como ter uma habitação adequada, água, alimento e 457.000€ numa conta offshore nas ilhas Cayman. Infelizmente, não podemos ter tudo! Muitas vezes temos de nos contentar simplesmente com uma conta offshore nas Ilhas Marshall. Enfim. Mas o que não podemos de maneira alguma descorar é uma das maiores carências que as famílias na União Europeia detém: a falta de uma “idosa doente, mais saudável do mundo”. Sim, é isso que leu! Todos tem o dever de adquirir um exemplar por família. E não sou eu que digo! Apenas sou um mensageiro que prega o decreto-lei n.º 1996/EU-274 da União Europeia, que diz no artigo 1, ponto 1, que “todas as famílias residentes nos Estados-Membros deverão incluir na sua estrutura pelo menos: a) Uma idosa em condição de enfermidade constante, mas que possua mais saúde do que os demais familiares e se queixe regularmente de diversas doenças”.

O que é uma “idosa doente, mais saudável do mundo”? No artigo 2, ponto 1, esclarece que “entende-se por “idosa doente, mais saudável do mundo” aquela que, apesar de relatar múltiplas enfermidades, demonstra condição física e mental superiores às dos demais familiares”.

Já possui um exemplar na sua casa? Se a resposta a esta pergunta for negativa, não se preocupe. O artigo 3, ponto 2 explica que “caso uma família não possua uma integrante que atenda às características exigidas, a autarquia local realizará a alocação de acordo com os critérios estabelecidos pelo Comité Europeu de Estrutura Familiar”.

Muitas das vezes, não é necessário algum tipo de alocação visto que, muitos de nós, já possuímos no nosso círculo familiar um exemplar de uma “idosa doente, mais saudável do mundo”, mais conhecida por avó. As avós são um excelente exemplar de uma “idosa doente, mais saudável do mundo” que deve ser estimada e preservada devido à sua escassez.  Por acaso, eu era detentor de um exemplar idêntico no passado, mas infelizmente, chegou a fins de vida. A bateria morreu. Não foi por falta de manutenção, pois os médicos já a chamavam “mobília da casa”, mal a viam a entrar no hospital pela 34ª vez naquele mês. Por isso, estou em lista de espera, mas não estou muito otimista.

Podemos dizer que as avós são uma espécie peculiar. Quando chegam à idade entre os 60 e 90 anos, elas passam por uma metamorfose psicológica ao ponto de cogitarem da seguinte forma: “Bem, estou farta de dizer que estou bem e de procurar o interesse dos outros. Por isso, a partir de hoje, vou tentar adquirir o mais vasto conhecimento em medicina e me afligir com todo o tipo doenças existentes e não existentes. Além do mais, todos e quaisquer sofrimentos alheios, são mariquice”.

Por causa desta mudança, tem ocorrido em muitas famílias algumas conversas reconfortantes. Tome nota de algumas delas:

Ilustração de Samuel Perdigão

[Situação 1: A filha está com a mão nas costas, após ter feito o jantar para a sua mãe.]

Filha: Aiiiiiiiiiiii as minhas costas!

A idosa doente, mais saudável do mundoSabes lá o que é dores nas costas, filha. Ontem à noite estava tão mal que até tive de pôr argila nas costas.

[Situação 2: A filha está hospitalizada e recebe uma visita da sua mãe.]

Filha: Aiiiiiiiiii a minha perna!

A idosa doente, mais saudável do mundo: Sabes lá o que é dores na perna, filha. Ontem à noite estava tão mal que não conseguia mexer as pernas de tantas dores que tinha.

Filha: Mãe, amputaram-me a perna!

A idosa doente, mais saudável do mundo: Pois, mais ainda tens a outra perna, filha. Olha para mim, só tenho um fígado e ainda ando aqui. Sabes lá o que é a vida!

[Situação 3: A filha está em cuidados paliativos a receber oxigénio.]

Filha: Mãe, Koff… huhhh…, não sei se vou durar muito mais tempo, Aaghh… hhff…

A idosa doente, mais saudável do mundo: Ó filha, tenho andado com uma tosse de cão que nem imaginas. Sabes lá o que tenho sofrido…

Lembre-se destes procederes antes de abrir a porta a uma “idosa doente, mais saudável do mundo”.

Além disso, esta magnífica idosa, vem equipada com a falta de coerência, característica que vai animar os dias do caro leitor. Por exemplo, certo dia, a minha mãe por altruísmo, cedeu a sua casa para que a minha avó pudesse usufruir de harmonia. O que não é nada mau. Ao jantar, entre queixas e queixinhas, a minha avó toma o comprimido para dormir pois diz que não consegue repousar. Lá uma das maleitas que ela possui.

Nessa mesma noite, além de conseguir dormir, decidiu apresentar-nos uma melodia de Beethoven que ecoava pela casa toda intitulada “Eu ronco e vocês não dormem”. Como se isso não bastava, decidiu levantar-se, pegar numa colher e num iogurte e no quarto, quando a minha mãe pensava que finalmente poderia dormir, a “idosa doente, mais saudável do mundo” decidiu entoar uma nova melodia, desta vez de Chopin intitulada “Como o iogurte acabou, vou escarafunchar com a colher este copo de iogurte até fazer um buraco para acordar toda a malta, como se já não estivessem acordados”. Para que conste, a minha mãe tinha depressão e transtorno de bipolaridade. Dá para imaginar porque a bateria da nossa “idosa doente, mais saudável do mundo” terminou. Acidentes.

Por isso, tendo em conta este decreto da União Europeia, acho melhor ir pregar para outra freguesia, talvez por emigrar para o Iraque, porque, pelo menos, lá tem fogo de artifício de vez enquanto. Raios parta a velha.

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André Sousa

André Sousa, navegante das marés incertas da esclerose múltipla, tece pensamentos desalinhados que desabrocham em reflexões profundas e paradoxais, ou, por outras palavras, uma autêntica estupidez.

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